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Saltei do Sofá

Blogue pessoal sobre a minha viagem à volta do mundo, desde o Sudeste Asiático até à América do Sul.

29
Mar18

Pai - onde te sentes em casa em viagem

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Pai é uma pequena vila no Norte da Tailândia, considerada por muitos como uma meca para os backpackers. Creio que pelo seu estilo hippie e, segundo dizem, pelas regras menos rígidas no que toca ao consumo de drogas. Bem, quanto a esta tema fiquei com algumas dúvidas… depois de ter sido revistada pela polícia.

A viagem de Chiang Mai a Pai é de dar a volta ao estômago. Subir e descer montanhas em constantes curvas apertadas (pelo que dizem Pai tem 752 curvas e é bem capaz de ser verdade) não poupa os estômagos dos mais sensíveis, onde eu obviamente me incluo. Mas meio agoniada lá cheguei a Pai, essa pequena vila com tantas promessas para querer lá ficar. Em 4 minutos a pé cheguei ao meu hostel e começou a magia!

Encontrei, no meio da vila, um encantador jardim com pequenos bungalows onde se respirava paz e tranquilidade. Dirigi-me à receção e encontrei uma senhora amorosa que me fez o check-in, me deu um mapa de Pai e me explicou exatamente o que fazer e como fazer, onde ir e onde não ir e até o sítio ideal para alugar uma scooter sem deixar passaporte :) Num instante fiquei munida com todas as ferramentas que precisava para a minha estadia naquela terra encantadora. Mas antes de me dirigir ao meu quarto, ainda fui informada que nessa noite teríamos no jardim um barbeque gratuito além das deliciosas bananas sempre disponíveis.  Portanto, toda uma receção que auspiciava uns dias bem passados naquele destino.

No dia seguinte fomos calorosamente acordados para tomar o pequeno-almoço e depois do estômago aconhegado o meu objetivo era alugar uma mota e fazer-me à estrada. Assim fiz. O primeiro destino era visitar uma cascata, mas a meio do caminho deparo-me com uma operação stop cá do sítio. Parei, desliguei a mota e fiquei a olhar para o polícia à espera que me pedisse o passaporte, carta de condução ou algo do género. Mas não, ele disse-me que estavam à procura de drogas e queria revistar a minha mochila. Dei-lhes tudo para que vissem, mas, sinceramente, ou eu tenho cara de santa ou com este tipo de revistas eles não vão achar o que querem. Segui o meu caminho entre as paisagens magníficas de Pai, apesar de estarmos na época seca e o verde já escassear. E terminei o meu roteiro numas hot springs maravilhosas. Creio que a água devia estar perto dos 40ºC e soube-me pela vida. Talvez por estar sozinha, rapidamente me tornei a escolha certa para parceira de brincadeiras dos pequenos tailandeses que ali estavam. Ah, crianças com energia! Não percebíamos a língua uns dos outros, mas fizemos a festa na mesma. Afinal, brincar é igual em qualquer parte do mundo. E são estes pequenos momento que enchem o coração e fazem valer tanto a pena por aqui andar.

Quando regressei a “casa” estacionei a minha mota no jardim e fui calorosamente recebida pela dona do hostel que, como se de uma mãe se tratasse, me perguntou como tinha sido o meu dia e o que tinha feito. De seguida, ainda fizemos uma pequena surpresa de aniversário ao dono do hostel, ao cantar-lhe os parabéns com um bolo minúsculo do 7eleven (o continente da Tailândia).

E foi assim, no meio deste ambiente familiar e tranquilo que passei os meus dias em Pai. Uma terra que vale bastante a pena visitar e que já tenho pena de não ter ficado mais tempo, apenas a deliciar-me com a paz e tranquilidade que lá se respira.

 

28
Mar18

O que me passou pela cabeça - III

O que fazias se te saísse o Euromilhões?

 

Esta é aquela perguntinha tão simples, mas que consegue dizer tanto sobre quais os nossos sonhos e os nossos profundos desejos para a nossa vida.

Normalmente, temos a tendência a apontar a estabilidade financeira como o grande culpado para a maior parte das decisões que não tomamos na nossa vida. Precisar de dinheiro e ter contas para pagar é geralmente a primeira desculpa que damos para não fazer algo que queremos, para não mudarmos algo na nossa vida. Daí, nada como nos colocarmos num cenário em que o dinheiro não é impeditivo para absolutamente nada. Sem a desculpa “dinheiro” o que faríamos nós, que caminho seguíamos?

Pois bem, a minha resposta a esta pergunta foi muito simples e direta, sem pensamentos nem rodeios.

- “Se me saisse o Euromilhões, despedia-me, depois ia durante um tempo viajar pelo mundo e quando voltasse criava o meu próprio negócio.”

- “E que negócio era esse?”

- “Isso ainda não sei, logo via.”

Ora, aqui estava a resposta muito simples àquilo que o meu íntimo queria. Àquele que era o meu mais profundo desejo. Já sabia aquilo que queria fazer, mas será que este plano só era exequível se ganhasse o Euromilhões?

Pois bem, não ganhei o Euromilhões mas aqui estou eu. Já me despedi e já estou a viajar pelo mundo e continuo a querer criar o negócio que não sei qual é quando voltar. E isto, simplesmente, porque numa altura da minha vida decidi pensar diferente e questionar se as coisas eram exatamente como pareciam à primeira vista. Não ter dinheiro não me impedia de fazer nada do que queria, só precisava de um bom plano e muito foco no objetivo.

Às vezes o dinheiro é só uma desculpa fácil para a nossa falta de coragem.

27
Mar18

Laos – Quando vais fazer um trekking pela natureza e acabas num casamento local

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O Laos é um país lindíssimo, com uma beleza natural incrível. Talvez por ser maioritariamente montanhoso, o verde e a água predominam.

E eu, como boa amante da natureza, não perdi a oportunidade de começar a viagem neste país por um parque nacional na província de Luang Namtha. Depois do maravilhoso trekking que fiz no Myanmar, estava desejosa por mais um aventura do género. E foi das melhores decisões, pois esta experiência entrou diretamente para o meu top.

Visitei algumas agências de aventura em Luang Namtha (existem várias) e optei pela Forest Retreat Laos para um dia de trekking + um dia de kayaking, juntando-me assim a um grupo de 3 nórdicos.

Encontro marcado para as 7h da manhã com direito a pequeno-almoço. A mim, aos dois finladeses e a um dinamarquês juntou-se mais um casal. Chegaram e sentaram-se à minha frente enquanto falavam espanhol. A voz da rapariga fazia tanto lembrar-me a da minha antiga chefe que foi impossível não sentir empatia. Depois em conversa percebi que afinal ela era Canadiana e ele Mexicano a viver no Canadá. A nós os 6 juntou-se um guia do qual não me lembro do nome, mas que não esquecerei da gargalhada.

Iniciámos os nossos 12km de caminhada pelo meio da floresta. Foi duro a valer. Passámos o dia a subir e a descer montanhas no meio de vegetação incrível e com encontros furtuitos com todo o tipo de insetos imaginários. Desde borboletas que mais pareciam desenhadas a aranhas brancas que pareciam algodão. Mas, como depois da tempestade vem a bonança, após o nosso esforço aterrámos num sítio absolutamente incrível, daqueles que parecem saídos dos filmes. No meio da floresta, junto a uma pequena baía do rio, tinhamos à nossa espera uma casa feita de bamboo. Um cenário lindíssimo. Depois de um merecido mergulho no rio gelado, fomos agraciados com um jantar maravilhoso cozinhado em lume de chão e recebemos a noite fria junto a uma fogueira teimosa entre goles de Lao Lao, o famoso whisky do Laos. Na casa de bamboo esperavam-nos umas criativas camas feitas de sacas de farinha e paus de bamboo, onde passámos a noite ao som do rio e dos animais circundantes.

No dia seguinte, um novo desafio, descer o rio de kayak. A minha estreia. Confesso que estava um pouco nervosa e por isso não demorei a chegar-me à frente para dividir o kayak com o nosso guia. E bem, foi mesmo o melhor que fiz. Apesar de no dia seguinte não sentir os braços, pelo menos não passei a viagem a ficar encalhada entre as pedras do rio. Entre os 4 kayaks tivemos de transportar também todo o material da noite anterior, uma vez que ao nosso “hotel de 5 estrelas” apenas era possível aceder de barco ou pelo trekking.

Durante a viagem fomos parando em algumas vilas e em spots para mergulhos no rio. Voltámos a parar numa cabana de bamboo no meio do caminho onde fizemos a nossa última refeição. Desta vez a dar tudo e já todos comemos com as mãos. E que bom que foi. Ah, confesso que esta experiência me deixou fã do famoso sticky rice.

Mas o melhor ainda estava para vir. Tinhamos em plano uma última paragem numa vila local. Quando nos aproximámos pelo rio começámos a ouvir música bastante alta e o nosso guia disse para nos prepararmos para a festa. Subimos até à aldeia, completamente molhados e imundos, e quando chegámos percebemos que se estava a realizar um casamento. Perguntámos ao guia se podíamos espreitar e ele disse que podíamos ir à vontade. E assim fizemos. Seguimos em passos mansos e entrámos no recinto cheio de mesas e cadeiras, com um espaço no meio com microfones e colunas e à frente do mesmo um espaço onde se podia dançar. Rapidamente uma senhora veio ter connosco, cumprimentou-nos e convidou-nos a sentar. Quando demos por nós estávamos todos sentados a uma mesa com um copo na mão cheio de cerveja Beerlao quente servida com gelo. Todos se aproximavam de nós para fazer um brinde e rapidamente nos apercebemos que antes de termos o copo vazio já nos estavam a atestar. A boa educação mandáva-nos aceitar, mas tinhamos uma hora de remo ainda pela frente e ficar alcoolizado não dava jeito. Recomeçou a música e a pista de dança encheu-se num instante, surgindo de imediato convites para que nos juntássemos também. Nenhum de nós cedeu à dança e começámos a entreolhar-nos questionando como nos escaparíamos dali. Chegou a um ponto que tivemos de começar a recusar mais bebida tentando explicar que não podíamos, mas eles não percebiam absolutamente nada do que lhes dizíamos. Só resultavam os gestos. Por fim, lá conseguimos aproveitar uma pausa da música e levantarmo-nos muito decididos em direção à saída. Mas não sem levarmos todos para casa um carinhoso abraço da senhora que nos recebeu.

Foi todo um momento mega intenso e inesquecível. Mas o mais giro é que não faço a mínima ideia quem seriam os noivos, mas lá que tinham um festa animada e bem regada lá isso tinham.

 

08
Mar18

O despertar da consciência

Quando cheguei ao Myanmar evocaram-se as memórias e passei toda a minha estadia no país embrenhada no passado. Senti que o meu avô me acompanhou durante toda a viagem e revivi saudosamente a minha infância.

Eu cresci no campo. Até aos meus 10 anos o monte dos meus avós não tinha eletricidade nem casa de banho. E sabem que mais? Sinto tantas saudades desse tempo. A minha vida era mais pura e mais saudável. É assustador quando percebo o quanto as coisas mudaram nos últimos 20 anos. A sociedade evoluiu a um ritmo galopante. Mas será que evoluiu para melhor? Em muitas coisas certamente, mas de uma coisa tenho a certeza. Somos hoje menos responsáveis e piores pessoas, olhamos só para o nosso umbigo e damos tudo como garantido. Achamos que merecemos ter coisas só porque sim e tornámo-nos nuns consumistas irresponsáveis.

Nesta viagem tenho-me deparado com paisagens aboslutamente maravilhosas. A mãe natureza e as suas criações têm o poder de me emocionar. No entanto, deparei-me com uma realidade que não esperava. O LIXO. O lixo, seja qual for, é jogado no chão como se fosse o sítio indicado para o colocar. Em Yangon, andei num comboio circular que tinha uma sinalética que dizia “No Littering”. Pois bem, é preciso respeitar as regras, por isso toda a gente atirava todo o tipo de lixo pela janela do comboio. É assustadora a quantidade de lixo nas margens da linha de ferro. O problema aqui reside em pura ignorância. Esta população não faz a mínima ideia que atirar o lixo para o chão, para a natureza, é uma coisa má e prejudicial para o planeta. Estes países não têm qualquer educação ambiental. E isto afetou-me realmente.

Por outro lado, durante a minha estadia nas pequenas vilas das minorias étnicas, percebi o respeito que eles têm pela água, que é escassa e de difícil acesso, e como a utilizam tão mais sabiamente do que nós. Por esta altura li também uma notícia sobre o Dia Zero na Cidade do Cabo e fiquei perplexa. Fiquei perplexa sobretudo porque era uma situação que podia ser evitada se a população tivesse sido mais consciente e reduzido o consumo de água atempadamente. Somos demasiado egoístas. Acreditamos que o pior nunca nos vai acontecer, até ser uma realidade já.

A questão é que estamos a matar o planeta a passos largos. E matar o planeta também é nos matarmos a nós mesmos e às nossas gerações vindouras.

Se por um lado é urgente criar educação ambiental nos países sub-desenvolvidos, por outro lado é ainda mais urgente reduzir o desperdício e a poluição nos países desenvolvidos. Nos dias de hoje, em que temos acesso desmesurado ao conhecimento, não faz sentido continuarmos a fechar os olhos e a achar que não é nada connosco. Não podemos continuar a ver nas notícias as catástrofes naturais a acontecerem e acharmos que não temos culpa nenhuma.

É altura de buscarmos ao passado aquilo que ele tem de melhor, saber viver com pouco, saber viver apenas com aquilo que realmente precisamos. Pelo menos foi a conclusão que retirei de tudo isto pelo qual tenho vindo a ser impactada. Quero reduzir a minha pegada ecológica e sentir que, apesar de ser apenas uma gota no oceano, eu estou a fazer a minha parte.

07
Mar18

Myanmar – o país onde têm mais fotos minhas do que eu deles

Se queres visitar o Myanmar, o momento é agora!

Depois de 15 dias na turística Tailândia, aterrei de avião em Mandalay – a segunda maior cidade de Myanmar. Rapidamente senti as diferenças face ao país vizinho. O caótico trânsito em que se conduz à direita mas o volante mantém-se também à direita, a buzina como o elemento mais importante dos transportes, as passadeiras que não existem, os passeios que servem para tudo menos para as pessoas se deslocarem neles.

Cheguei esfomeada e entrei no primeiro restaurante que me apareceu à frente. O primeiro desafio, ninguém falava inglês. Lá tive de recorrer à melhor linguagem do mundo que é o gesto e fiz a minha primeira refeição no país dos amendoíns por 0,50€. Depois de saciar o estômago, saí para um primeiro reconhecimento da cidade. E foi nesta caminhada pela tarde que me senti um verdadeiro alien. Não encontrei mais nenhum turista ocidental e as pessoas locais olhavam-me com admiração. Encontrei pelo caminho um grupo de miúdos que decidiu seguir-me enquanto iam alegremente dizendo “hello, hello” e colocando os dedos nos olhos a simular os meus óculos. No Myanmar é raro ver-se pessoas de óculos e por diversas vezes fui alvo de curiosidade exatamente por usá-los.

Tentei encontrar uma paragem de autocarro que me levasse a ver o pôr-do-sol na famosa ponte de teca, no entanto foi impossível tal feito uma vez que não existe aboslutamente nenhuma sinalética em inglês. E decifrar os caracteres birmaneses não é algo exequível para mim.

No dia seguinte, aluguei uma bicicleta e embrenhei-me no trânsito enquanto rezava para sobreviver. Mas rapidamente aprendi a técnica para conseguir atravessar os imensos cruzamentos desta cidade geométrica, posicionar-me ao lado de uma carrinha que seguisse na mesma direção que eu e pedalar ferozmente para acompanhar o ritmo e chegar viva ao outro lado da estrada. Fui até ao porto de barcos que me levaria até Mingun. Fiquei contente quando lá cheguei e encontrei mais turistas, sinceramente já estava a sentir falta de alguma familiaridade.

Quando cheguei a Mingun, fui completamente assediada por uma senhora Birmanesa muito simpática que enquanto me ia explicando a história das ruínas me impingia um leque pintado à mão. Tentei livrar-me dela, mas fui vencida pelo cansaço e acabei por comprar-lhe uma pulseira, segunda ela de pedra jade verdadeira. Os birmaneses são um povo espetacular, super simpáticos e atenciosos, mas esta atitude comercial agressiva que se encontra nos locais turísticos de facto irritou-me. Mas depois penso nos meus meninos de Bagan, tão queridos e amorosos que me ofereceram um prato cheio de frutas, o senhor do barco que me disse que era o dia de sorte dele porque eu era a primeira portuguesa que conhecia ou a Nanda, a guia do trekking que fiz de kalaw a Inle Lake, que me inspirou desde o primeiro momento com a sua força e determinação para seguir atrás dos sonhos e ter uma vida melhor, pela simplicidade e pelo bom coração.

De facto, quando penso neste povo enche-me o coração. Visitar as aldeias das minorias étnicas e dormir nas suas casas foi das experiências mais enriquecedoras que poderia ter. Embrenhar-me nos costumes e ver de perto o dia-a-dia destas pessoas fez-me perceber o quão puro e genuíno este país ainda se mantém. E para mim, enquanto viajante, isso fascina-me. Não quero visitar outros países e encontrar o mesmo que tenho no meu, quero encontrar algo típico desse país com todas as características e diferenças que lhe são inerentes. Gosto de visitar locais onde me pedem para tirar fotos comigo exatamente por não estarem acostumados a conviver com estes espécimes de pele clara e nariz grande.

Por isso vos digo, se querem visitar um país ainda puro e pouco turístico este é o momento. Aproveitem, antes que os chineses e os franceses estraguem isto tudo.

 

 

06
Mar18

O que me passou pela cabeça - II

Qual o peso que o trabalho tem na tua vida?

 

Até pode parecer uma pergunta simples, mas foi suficiente para perceber que a minha vida estava de facto muito errada.

Quando me fizeram esta pergunta, a minha primeira resposta foi 95%. Depois pensei duas vezes, e respondi 80%.

Mas na realidade só comecei a perceber que era um caso de estudo quando comecei a fazer a mesma pergunta às pessoas à minha volta. Praticamente todas me responderam entre 30% a 40%. Ora, estão a notar a diferença? Eu comecei a ficar em choque.

Depois pensei, não, eu preciso de uma comparação mais justa, alguém com um perfil profissional mais parecido com o meu. E, por isso, questionei uma pessoa que para mim é um perfeito exemplo de equilíbrio entre a importância que dá à vida profissional e à vida pessoal. E a resposta dela foi 60%.

Naquele momento, percebi que tinha muito trabalho pela minha frente. Não para atingir os 100%, mas sim muito trabalho a rebalancear o quão dava de mim às diferentes vertentes da vida. Claramente, dar 95% de mim a um trabalho que não me fazia feliz, não me parecia a melhor opção de vida.

05
Mar18

Tempo de abrandar

Eu sou daquelas pessoas que acredita que tudo acontece por uma razão. Podemos até não perceber bem qual, mas ela está lá. E acho que ter ficado doente serviu para abrandar o ritmo.

Vim viajar com imenso tempo e sem qualquer pressa, como costumam dizer, com o objetivo de “viajar devagar”. Mas a verdade é que passei o último mês num verdadeiro rodopio de um lado para o outro. Acho que tive medo de ficar demasiado tempo nos sítios que visitava e ficar aborrecida sem nada para fazer. Só que por mais estúpido que possa parecer, viajar é realmente cansativo. Não só fisicamente, porque ando imenso a pé e debaixo de temperaturas próximas dos 40ºC, mas também mentalmente. Em viagem tudo é novo todos os dias. Todos os dias são diferentes e estamos constantemente a absorver um mundo novo. Vivemos diariamente em alta intensidade e, acreditem, estou aqui há 5 semanas mas parece muito mais tempo.

Ter ficado doente tornou complicado passar o dia inteiro na rua e obrigou-me a mais sestas e repouso. E a verdade é que estou mesmo a sentir que o meu corpo está a exigir-me isso, mais descanso e mais calma. E é que o vou fazer, abrandar. Menos atividades por dia e mais dias em cada sítio. Para já, apaixonei-me por Chiang Mai. Apesar de ser uma cidade, encontrei aqui algo que me apazigua. E depois seguirei para Pai, uma terra na Tailândia exatamente conhecida pelo seu estilo de vida tranquilo.

Afinal, já diz o ditado, devagar se vai ao longe.

03
Mar18

O que me passou pela cabeça - I

“Onde queres chegar nos próximos anos? Qual o teu objetivo?

Pensa nisso e depois falamos.”

Recebi estas questões como se fossem um murro no estômago.

Segui o conselho da minha chefe e fui pensar muito seriamente sobre o assunto. Pela primeira vez na minha vida estava a desempenhar uma função de que gostava realmente, mas não fazia a mínima ideia de qual a evolução de carreira que queria na minha vida.

E foi neste cenário que comecei a procurar bem dentro de mim aquilo que pretendia para o meu futuro, que caminho queria seguir, o que estava eu a construir.

Assustei-me!

Assustei-me ao perceber que não desejava realmente nenhum dos caminhos que me eram possíveis conceber a partir do exato ponto em que me encontrava. Nada fazia sentido para mim. Comecei a perceber que algo estava a falhar.

Felizmente ou infelizmente, a minha chefe despediu-se antes de eu ter de lhe dar uma resposta e limitei-me a guardar todas as minhas inquitações para mim mesma.

02
Mar18

Quando ficas doente em viagem

É oficial, o meu sistema digestivo não gosta de celebrações.

Depois de ter passado o último Natal a canja, no dia em que comemorei um mês de viagem fiquei doente. A primeira vez desde que cheguei, e logo no pior dia possível.

Ontem foi dia de atravessar a fonteira terrestre entre o Myanmar e a Tailândia através da Friendship Brigde que liga Myawaddy a Mae Sot. E, daqui, seguir diretamente para Sukhothai, uma cidade histórica no centro da Tailândia. Ora, basicamente um dia inteiro em viagem com uma série de burocracias pelo meio.

Na noite anterior, por volta das 4h da manhã acordei com uma dor de estômago terrível e ingenuamente ainda pensei que era fome. No dia antes, depois de passar duas horas a subir as escadas que me levaram até ao pico do Monte Zwegabin (2372ft), cheguei ao hotel completamente morta e limitei-me a jantar tangerinas seguidas de 8 rebuçados de amendoim. Estes últimos que acredito terem sidos os malfeitores desta história. Mas logo percebi que não se tratava de fome, mas sim de uma indigestão ou algo do género. O meu estômago ardia ferozmente. Como sou uma menina já habituada a ter um estômago sensível, utilizei a técnica dos bulémicos para tentar melhorar. Melhorei ligeiramente e voltei a dormir, mas quando o sol nasceu e me levantei quase não me conseguia mexer. Começou o martírio! Ter de me vestir, ter de arrumar a mala, tentar comer mas só conseguir dar uma dentada num pão com manteiga, e chegar a tempo de apanhar o táxi partilhado que me levaria à fronteira, supostamente 3h depois.

Quando entro no táxi percebo que mal tinha espaço para me mexer no espaço que me estava destinado. Todas as partes do meu corpo doíam profundamente. Decidi tomar um paracetamol que retirei da minha imensa farmácia de viagem, na esperança de surgirem algumas melhoras. Mas o efeito foi o contrário, comecei a sentir-me tremendamente enjoada e só a pensar que não podia vomitar no táxi. Já em desespero, sem aguentar mais, perguntei à rapariga ao meu lado se tinha um saco de plástico. E, naquele momento, fui completamente abençoada pela sorte. A rapariga francesa ao meu lado abre uma bolsa da mochila, retira um saco de plástico completamente inutilizado e dá-me. Só tive tempo de abrir o saco e seguiram-se três golfadas de chá, água e uma dentada de pão, tudo o que o meu estômago tinha. Após este brilhante momento de dignidade, senti um profundo alívio. A verdade é que o meu estômago ficou mais pacífico. Mas convinhamos, quem conhece o Myanmar sabe que as estradas são terríveis. As 3h de viagem, que afinal foram 5h, foram um verdadeiro sacrifício.

Chegámos à fonteira à hora de almoço, debaixo de quase 40ºC. Depois dos trâmites legais no Myanmar, tive de atravessar a ponte a pé, com 15kg às costas e sem uma sombra à vista. Chego ao outro lado e tenho a primeira boa notícia do dia, vou poder ficar na Tailândia até ao derradeiro dia dos meus 30 anos. Deram-me permanência de 30 dias no país e não de 15, como eu estava à espera.

Passo seguinte: apanhar uma pick-up que me levasse até à estação de autocarros. Entrei na carrinha que me levaria ao meu destino em Mae Sot e, não sabendo onde era, saí na paragem onde todas as outras pessoas saíram, ingenuamente a pensar que todos iam para o mesmo destino que eu. Após tentar perceber onde era a estação, mas sem sucesso, perguntei a uma senhora que me indicou que outra pick-up me podia levar lá. O meu corpo doía, eu só queria uma cama, e andava perdida às voltas de um lado para o outro. Mas desta vez não me deixei enganar e cheguei finalmente à estação. Perguntei na cabine de informações onde poderia comprar o bilhete para Sukhothai. Indicou-me o local, mas só abria às 15h. Eram 14h55. Ingénua, fui sentar-me para recuperar energias. E quando chegou as 15h tinha uma fila enorme de pessoas à minha frente. Não conseguia estar de pé, estava completamente sem forças, sentia que a qualquer momento ia desmaiar. Estamos na Ásia, e aqui é tudo com calma. A fila demorou horrores a avançar. Comecei a chorar de tantas dores que sentia, tive de me ajoelhar no chão por não conseguir estar de pé. Um rapaz tailandês que estava atrás de mim foi comprar uma água e um pó para a gripe para me dar. Vamos encontrando pessoas boas pelo caminho, mesmo. Não falava inglês, mas prontamente sacou uma app de tradução no telemóvel onde escreveu “Como te posso ajudar?”. Infelizmente, não podia. Naquele momento, senti verdadeiramente que viajar sozinha é difícil.

Lá consegui o meu bilhete e fui finalmente sentar-me. Esforcei-me por comer meia banana, tomei um comprimido e deitei-me nos bancos da estação. Dormitei durante 45 minutos e quando me levantei já me sentia melhor. Fui apanhar o autocarro e o deu-se o momento alto do dia. O autocarro tinha bancos de classe VIP, onde praticamente conseguia viajar deitada. E o meu pensamento foi “Depois da tempestade, vem a bonança.”.

A verdade é que quando se está a viajar sozinho e se fica doente, somos obrigados a aguentar o sacrifício e a reagir o melhor possível. Acabamos por encontrar mais forças do que certamente teríamos se tivessemos na nossa própria casa e com família ou amigos para nos trazerem uma canja à cama.

Hoje já me sinto melhor e já fui ver templos, e espero tão cedo não me ver novamente nesta situação.

Quem sou eu

Sou uma miúda inconformada e curiosa. Passei a maior parte do meu tempo a viajar no sofá, através da minha mente imparável. Mas, aos 30 anos, descobri que era altura de saltar do sofá e ir viver com os 5 sentidos.

Armada em Fotógrafa

Para desabafos

salteidosofa@gmail.com

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