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Saltei do Sofá

Blogue pessoal sobre a minha viagem à volta do mundo, desde o Sudeste Asiático até à América do Sul.

02
Mar18

Quando ficas doente em viagem

É oficial, o meu sistema digestivo não gosta de celebrações.

Depois de ter passado o último Natal a canja, no dia em que comemorei um mês de viagem fiquei doente. A primeira vez desde que cheguei, e logo no pior dia possível.

Ontem foi dia de atravessar a fonteira terrestre entre o Myanmar e a Tailândia através da Friendship Brigde que liga Myawaddy a Mae Sot. E, daqui, seguir diretamente para Sukhothai, uma cidade histórica no centro da Tailândia. Ora, basicamente um dia inteiro em viagem com uma série de burocracias pelo meio.

Na noite anterior, por volta das 4h da manhã acordei com uma dor de estômago terrível e ingenuamente ainda pensei que era fome. No dia antes, depois de passar duas horas a subir as escadas que me levaram até ao pico do Monte Zwegabin (2372ft), cheguei ao hotel completamente morta e limitei-me a jantar tangerinas seguidas de 8 rebuçados de amendoim. Estes últimos que acredito terem sidos os malfeitores desta história. Mas logo percebi que não se tratava de fome, mas sim de uma indigestão ou algo do género. O meu estômago ardia ferozmente. Como sou uma menina já habituada a ter um estômago sensível, utilizei a técnica dos bulémicos para tentar melhorar. Melhorei ligeiramente e voltei a dormir, mas quando o sol nasceu e me levantei quase não me conseguia mexer. Começou o martírio! Ter de me vestir, ter de arrumar a mala, tentar comer mas só conseguir dar uma dentada num pão com manteiga, e chegar a tempo de apanhar o táxi partilhado que me levaria à fronteira, supostamente 3h depois.

Quando entro no táxi percebo que mal tinha espaço para me mexer no espaço que me estava destinado. Todas as partes do meu corpo doíam profundamente. Decidi tomar um paracetamol que retirei da minha imensa farmácia de viagem, na esperança de surgirem algumas melhoras. Mas o efeito foi o contrário, comecei a sentir-me tremendamente enjoada e só a pensar que não podia vomitar no táxi. Já em desespero, sem aguentar mais, perguntei à rapariga ao meu lado se tinha um saco de plástico. E, naquele momento, fui completamente abençoada pela sorte. A rapariga francesa ao meu lado abre uma bolsa da mochila, retira um saco de plástico completamente inutilizado e dá-me. Só tive tempo de abrir o saco e seguiram-se três golfadas de chá, água e uma dentada de pão, tudo o que o meu estômago tinha. Após este brilhante momento de dignidade, senti um profundo alívio. A verdade é que o meu estômago ficou mais pacífico. Mas convinhamos, quem conhece o Myanmar sabe que as estradas são terríveis. As 3h de viagem, que afinal foram 5h, foram um verdadeiro sacrifício.

Chegámos à fonteira à hora de almoço, debaixo de quase 40ºC. Depois dos trâmites legais no Myanmar, tive de atravessar a ponte a pé, com 15kg às costas e sem uma sombra à vista. Chego ao outro lado e tenho a primeira boa notícia do dia, vou poder ficar na Tailândia até ao derradeiro dia dos meus 30 anos. Deram-me permanência de 30 dias no país e não de 15, como eu estava à espera.

Passo seguinte: apanhar uma pick-up que me levasse até à estação de autocarros. Entrei na carrinha que me levaria ao meu destino em Mae Sot e, não sabendo onde era, saí na paragem onde todas as outras pessoas saíram, ingenuamente a pensar que todos iam para o mesmo destino que eu. Após tentar perceber onde era a estação, mas sem sucesso, perguntei a uma senhora que me indicou que outra pick-up me podia levar lá. O meu corpo doía, eu só queria uma cama, e andava perdida às voltas de um lado para o outro. Mas desta vez não me deixei enganar e cheguei finalmente à estação. Perguntei na cabine de informações onde poderia comprar o bilhete para Sukhothai. Indicou-me o local, mas só abria às 15h. Eram 14h55. Ingénua, fui sentar-me para recuperar energias. E quando chegou as 15h tinha uma fila enorme de pessoas à minha frente. Não conseguia estar de pé, estava completamente sem forças, sentia que a qualquer momento ia desmaiar. Estamos na Ásia, e aqui é tudo com calma. A fila demorou horrores a avançar. Comecei a chorar de tantas dores que sentia, tive de me ajoelhar no chão por não conseguir estar de pé. Um rapaz tailandês que estava atrás de mim foi comprar uma água e um pó para a gripe para me dar. Vamos encontrando pessoas boas pelo caminho, mesmo. Não falava inglês, mas prontamente sacou uma app de tradução no telemóvel onde escreveu “Como te posso ajudar?”. Infelizmente, não podia. Naquele momento, senti verdadeiramente que viajar sozinha é difícil.

Lá consegui o meu bilhete e fui finalmente sentar-me. Esforcei-me por comer meia banana, tomei um comprimido e deitei-me nos bancos da estação. Dormitei durante 45 minutos e quando me levantei já me sentia melhor. Fui apanhar o autocarro e o deu-se o momento alto do dia. O autocarro tinha bancos de classe VIP, onde praticamente conseguia viajar deitada. E o meu pensamento foi “Depois da tempestade, vem a bonança.”.

A verdade é que quando se está a viajar sozinho e se fica doente, somos obrigados a aguentar o sacrifício e a reagir o melhor possível. Acabamos por encontrar mais forças do que certamente teríamos se tivessemos na nossa própria casa e com família ou amigos para nos trazerem uma canja à cama.

Hoje já me sinto melhor e já fui ver templos, e espero tão cedo não me ver novamente nesta situação.

Quem sou eu

Sou uma miúda inconformada e curiosa. Passei a maior parte do meu tempo a viajar no sofá, através da minha mente imparável. Mas, aos 30 anos, descobri que era altura de saltar do sofá e ir viver com os 5 sentidos.

Armada em Fotógrafa

Para desabafos

salteidosofa@gmail.com

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